Antirruído
56 de 100
Eu gosto de usar fones simplesmente para silenciar tudo em volta, menos ruído. Quando me concentro, escuto as batidas do meu coração, sinto o pulsar das minhas veias.
Tem algo no silêncio. Tem respiro. Tem resposta.
Por mais que até em orações me pegue tagarelando sem parar, como uma criança atrás do pai que questiona sobre tudo, há uma oração, um afago, que só o silêncio oferta. Um abraço na consciência de cada respiração.
Às vezes acho que poderei voltar a ser poeira de estrela se me descolar o suficiente. Parece mais fácil ser poeira em certos momentos. Em outros, acho que tudo é mais simples do que parece.
Como o fone que abafa o ruído, algumas mudanças precisam ser radicais. Toda vez que me vejo fazendo algo ocupar o lugar de Deus, lembro-me: melhor entrar no céu sem uma mão.
Parece quase maluco ou radical para esse mundo hiperconectado, eu ter a plena convicção de que ao me desconectar é quando realmente me conecto.
Mas não posso cair nessa falácia boba de afastamento, de separação, nesse colocar o resto como inferior, que muitas vezes o ego nos engana como falsa iluminação.
Então me coloco no mundo, e por vezes sinto ódio, inveja, choro de raiva por sentir minha humanidade vivaz, por querer às vezes fazer justiça com minhas próprias mãos, mas lembro-me que com a mesma régua que meço, serei medida, e retorno ao estado de aceitação. Aceitação do que foi, do que não ocupa mais minhas mãos.
Volto-me aos aparentes afazeres cotidianos e tento fazê-los com esmero e excelência, não em troca de algum retorno, mas consciente de nossa natureza humanamente divina.

